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2 de janeiro de 2015

O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman


2014 foi o ano de Gamain para mim! Na minha lista de livros lidos, Gaiman bate o recorde, maior volume de livros e maiores notas.
Por isso acabei deixando para ler o Oceano no Fim do Caminho, no fim do ano, dando um espaço maior entre os livros, mesmo meses depois que comprei. Quanto arrependimento, não por ter lido, mas por ter demorando tanto para ler, na pagina 20 o livro já tinha me ganhado, na pagina 60 já não conseguia pensar em nada além de “preciso terminar esse livro”.


" (...) - Vou dizer uma coisa importante para você. Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com o que sempre foram. Com o que eram quando tinham a sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho. (...)"








“Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos.           
Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino.        
Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.”

“(...)- Esse é o problema com as coisas vivas. Não duram muito. Gatinhos num dia, gatos velhos no outro. E depois ficam só as lembranças. E as lembranças desvanecem e se confundem, viram borrões...”








O interessante desse livro é nem todos os personagens tem nome, ou melhor, o narrador e sua família não possuem nomes. Mas isso não os torna vagos, tanto o narrador como e a família Hempstock e a Ursula Monkton são personagens incríveis, e mesmo os que não temos tanta profundidade com os pais do narrador ou o vendedor de opala, são complexo e importantes para a história.

“Tudo me voltava à memória, mas, mesmo enquanto lembrava, eu sabia que não seria por muito tempo: eu me lembrava de todas as coisas ali, sentado no banco verde ao lado do laguinho que Lettie Hempstock um dia me convenceu ser um oceano.”





Lettie Hempstock com certeza entrou no meu céu literário para nunca mais sair, ela e seu Oceano. Achei a personagem tão completa e impressionante que queria saber mais, queria saber sobre o passado e futuro de Lettie. 






Sim. Inicio e fim com gosto de quero mais, tenho a impressão que a história é um fragmento dentro de tantas outras nesse universo da família Hempstock, a qual eu queria muito ler sobre tudo, mas a história proposta no livros começa e termina.

"Nos sonhos eu também falava aquela língua, a língua original, e tinha domínio sobre a natureza de tudo o que era real. No meu sonho, aquela era a língua do que é, e tudo o que fosse falado nela se tornava realidade, porque nada dito com ela pode ser mentira. A língua é o fundamento da construção de tudo. Nos meus sonhos, eu usei esse idioma para curar os doentes e para voar; uma vez sonhei que tinha uma pousada à beira-mar, e para todo mundo que se hospedava lá eu dizia, naquela língua, "Sê inteiro", e eles se tornavam inteiros, e não pessoas fragmentadas, não mais, porque eu havia falado a língua da criação."




MUITO. A cada obra que leio de Gaiman fico meio aérea quando termino e penso muito sobre ela, O Oceano no Fim do Caminho me deixou pensativa, na verdade ainda estou. O livro mostrou que não só tem uma capa linda, como uma história de te fazer pensar.
Recomendo muito!



CURIOSIDADES: Mesmo antes de lançado, O Oceano no Fim do Caminho já teve os direitos de adaptação para o cinema comprados pela produtora Playtone, com o diretor Joe Wright (Anna Karenina, Desejo e Reparação) ligado ao projeto. O que me deixa meio feliz, não tenho problemas com adaptações, principalmente adaptações de Gaiman que geralmente tem o Autor ao lado participando de cada passo, mas sabe quando você ama tanto um livro que prefere deixa-lo na sua cabeça? E assim que me sinto!

" (...) - Pessoas diferentes se lembram das coisas de jeitos diferentes, e você nunca vai ver duas pessoas se lembrando de uma coisa da mesma forma, estivessem elas juntas ou não. (...)"












25 de agosto de 2014

Clube da Luta – Chuck Palahniuk


Por uma coincidência do ~cosmos~ vários blogueiros e podcasters que eu acompanho falaram ou citaram esse livro nas ultimas semanas. Na maioria das vezes o colocando entre um dos melhores livros lidos.

A curiosidade logo foi despertada, principalmente porque ainda não havia assistido ao filme de mesmo nome, então iria ler o livro sem estar contaminada pela adaptação cinematográfica. O resultado desses dois ou três dias lendo esse livro é mais que uma opinião sobre a obra, é meio que uma declaração de amor. Um texto que mexeu comigo em níveis que não dá pra explicar. 





Clube da Luta narra a história de um homem insone e entediado, empregado numa empresa de Recall de carros e que acha que sua vida é perfeita demais.

“Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou comprar na vida. Compra o sofá, e por um par de anos fica satisfeito porque, aconteça o que acontecer, ao menos tem o seu sofá. Depois precisa de um bom aparelho de jantar. Depois de uma cama perfeita. De cortinas. E de tapetes. Então cai prisioneiro de seu adorável ninho, e as coisas que antes lhe pertenciam passam a possuir você. Sabe aqueles carros superconservados que parecem ter saído direto da vitrine do revendedor em 1955, acho um desperdício.“

Para se sentir mais vivo e amenizar essa sensação de que tudo estava perfeito demais, esse homem passa a frequentar grupos de apoio. Desses que as pessoas compartilham suas malezas num tratamento psicológico coletivo. E ele frequenta vários: pessoas com câncer no testículo, pessoas com parasitas cerebrais, entre outros.

Mas nenhum desses grupos se tornou tão eficaz no seu objetivo que o Clube da Luta. Criado pelo homem e por Tyler Durden, seu, digamos, amigo.

O apartamento dele sofre uma explosão e ele vai morar com Tyler. Então toda a loucura do clube da luta chega a todos os limites possíveis.

“Tyler fica embaixo da única lâmpada no meio do porão escuro e vê a luz refletida em centenas de olhos. A primeira coisa que Tyler grita é:
— A primeira regra do clube da luta é não falar do clube da luta.
— A segunda regra do clube da luta é não falar do clube da luta.
Tyler fica sob a única lâmpada em plena madrugada, no porão repleto de homens, e passa as outras regras: dois homens por luta, uma luta por vez, sem camisa e sem sapatos, a luta só termina quando os dois quiserem.
— E a sétima regra é: se esta é a sua primeira noite no clube da luta, você
tem de lutar.”

Foi nessa viagem do Clube da Luta que eu mais pirei. O importante enquanto se estava lutando não era ganhar a luta, era simplesmente se sentir vivo dentro daquela experiência agressiva.

“O auto-aperfeiçoameno talvez não seja a solução. A solução talvez seja a autodestruição. [...] Você não se sente tão vivo em nenhum outro lugar como no clube da luta. Quando estão só você e o outro cara embaixo da lâmpada e toda aquela gente assistindo. Clube da luta não tem nada que ver com ganhar ou perder lutas. [...] Há gritos histéricos e línguas estranhas como nas igrejas, mas quando você acorda no domingo à tarde se sente salvo.”

Não importa se você é médico ou gari, não importa se você tem 1 milhão de dólares no banco ou é um fudido que deve até as calças, no clube todos eram iguais, buscando o mesmo objetivo: se sentir vivo! Colocar para fora todas as mazelas da alma que cada uma daquelas pessoas sentia. O clube da Luta esgotava o excesso de energia negativa, o desânimo para enfrentar suas rotinas, a monotonia de uma vida cheia de regras e horários a serem cumpridos.

“Você não é um floco de neve, bonito e único. É a matéria orgânica em decomposição como todo mundo e todos fazemos parte da mesma composteira.  A nossa cultura nos tornou todos iguais. Mas ninguém é mais branco, mais preto ou mais rico. Todos queremos a mesma coisa.Individualmente, não somos nada.”


O clube da Luta então se projeta para algo ainda mais agressivo e ideológico: O Projeto de Ações Violentas. Nesse momento diversos clubes da luta haviam sido criados por todos os lados e Tyler, o idealizador de tudo, já não estava satisfeito apenas com as sensações advindas do clube, ele precisava de mais.



“É possível criar tolerância à luta, por isso eu talvez precisasse de algo mais forte. Foi nessa manhã que Tyler inventou o Projeto de Ações Violentas. Tyler perguntou com que eu estava lutando. Sabe as coisas que Tyler diz sobre ser um merda, um escravo da história? Pois era assim que eu me sentia. Queria destruir tudo de belo que nunca tive. [...] Queria que o mundo todo chegasse ao fundo. É o Projeto de Ações Violentas que vai salvar o mundo. A era glacial da cultura. A era do obscurantismo prematuramente induzido. O Projetode Ações Violentas forçará a humanidade a entrar em estado de dormência ou de enfraquecimento o tempo que for preciso para a Terra se recuperar.

— Você justifica a anarquia — diz Tyler. — Você a compreende. O que o clube da luta faz pelos escriturários e bilheteiros, o Projeto deAções Violentas fará pela civilização, para que façamos algo de bom pelo mundo. Esse é o objetivo do Projeto de Ações Violentas, diz Tyler, a destruição mais completa e direta da civilização.”





Alem do “homem” e de Tyler Durden conhecemos também Marla Singer que conhece nosso narrador num dos grupos de apoio, o de câncer nos testículos. Óbvio que ela também era uma impostora então o homem e ela passam a se odiar por um estar invadindo o espaço do outro. Só que Marla começa um relacionamento com Tyler e tudo fica muito confuso. O homem e Marla passam a dividir os horários nos grupos para não se encontrarem.  A Marla frequenta toda a história contribuindo com ela em partes cruciais. É uma personagem que consegue ser profundamente descrito mesmo aparecendo na história, pelo menos no começo, nas bordas dos pensamentos do homem, que nos narra a história.


Todos os outros personagens são mais ou menos superficiais, o chefe do homem, os chefes de Tyler, pessoas dos grupos de apoio, números do clube da luta e do projeto de ações violentas que acaba tendo uma sede na casa de Tyler, onde ele abriga alguns homens que abrem mão de suas vidas para obedecer cegamente a Tyler e suas ideias. Como fachada para o projeto de ações violentas, eles fazem e vendem sabões sob o nome de Paper Street SoapCompany (daí a capa com imagem de sabão). O que os compradores não sabem são os meios obscuros pelos quais são adquiridas as “banhas” para preparo do sabão.  E isso não dá pra explorar por aqui sem dar spoilers que estragariam a sua experiência com o livro.

Me assustou e me encantou também a inconseqüência dos personagens. Na verdade a profunda fé que eles tinhas nas propostas de Tyler Durden, em como aquilo poderia trazer algo de positivo para eles a ponto de eles o seguirem cegamente. 

“— Se você é macho, é cristão e mora nos Estados Unidos, seu pai é o seu modelo de Deus. Se você não conhece seu pai, se ele sumiu ou morreu ou se nunca estava em casa, você acredita em Deus?
— E o que você acaba fazendo — diz o mecânico é passar a vida procurando pelo pai e por Deus. Pense na possibilidade de Deus não gostar de você. É possível que Deus odeie a gente. Não é a pior coisa que pode acontecer — continua ele. Para Tyler, é melhor chamar a atenção de Deus por ser mau do que não ter nenhuma atenção por ser bom. Talvez o ódio de Deus seja melhor que a sua indiferença. Se você pudesse ser o pior inimigo de Deus ou não ser nada, o que escolheria? Somos os filhos do meio de Deus, segundo Tyler Durden, e não temos um lugar na história nem merecemos atenção especial. Se não conseguirmos chamar a atenção de Deus, não teremos a menor chance de condenação ou de redenção. O que é pior, o inferno ou nada?
Só se formos pegos e punidos poderemos ser salvos.”





A história vai sendo contada pelo homem e vai fazendo sentido aos poucos. O autor te joga um monte de fatos em sequência e fecha todos eles lindamente no final. Mais que isso, o autor vai jogando revelações capítulo após capítulo te deixando cada vez mais grudado no livro, na história, no homem, em Tyler Durden e toda a loucura que os cercam.

Eu fiquei satisfeita com os fim de todos os parênteses abertos pelo autor .





Como eu disse no início é difícil explicar o quanto esse livro mexeu comigo. Esse tapa na cara com a mensagem de: veja só que vida inútil que você leva, veja só como você abre mão das coisas que você sonha para atender anseios que nunca foram seus, mas que são dessa sociedade que tenta te ditar o que é sucesso, o que deve ser felicidade.
“Se você estiver no clube da luta, tanto faz o dinheiro que tenha no banco. Você não é o que faz para viver. Você não é a sua família e não é quem pensa que é.
O mecânico grita para o alto:
— Você não é o seu nome.
— Você não é os seus problemas.
— Você não é os seus problemas.
— Você não é a idade que tem.”


O homem, nosso narrador, tinha tudo que muitas julgam ser felicidade, ele e tantos outros membros do clube da luta: ricos, bem sucedidos. Mas todos eles sentiam a mesma coisa, se sentiam amortecidos. Como se suas vidas não tivessem nenhum sentido. E o clube da Luta surgiu como uma resposta. De repente mesmo com os rostos machucados e uma ou duas costelas quebradas eles passaram a se sentirem mais felizes, a não se irritar no trânsito, a descobrir pequenos prazeres diários. O clube da luta era uma porrada de realidade. Literalmente.

"Uma semana depois do clube da luta, você ainda dirige no limite de velocidade sem nenhum problema. Talvez esteja passando o inferno com os ferimentos internos há uns dois dias, mas nunca esteve tão calmo. Os carros passam por você. Grudam no seu pára-choque.  Os motoristas erguem um dedo para você. Gente completamente estranha que o odeia. Não é nada pessoal. Depois do clube da luta, você fica tão relaxado que tanto faz. Nem lembra de ligar o rádio. Talvez sinta uma pontada nas costelas ao inspirar por causa de uma fratura da grossura de um fio de cabelo. Os carros atrás piscam os faróis. O sol se põe, laranja e dourado."

Clube da Luta é nada mais que uma análise visceral da loucura que é a nossa sociedade atual. É como se o Chuck Palahniuk tivesse colocado uma lente de aumento dentro da cabeça das pessoas. Me senti uma expectadora das loucuras mais profundas da mente moderna que são barradas todos os dias pelos “superegos”de gente comum por aí.  Loucuras que só precisam de um certo nível de desordem mental para acontecer.

" — O que a arma faz é direcionar a explosão.
— Você tem uma classe de mulheres e homens jovens e fortes que estão dispostos a dar a vida por alguma coisa. A publicidade persegue
essa gente com carros e roupas desnecessários. As gerações vêm trabalhando em empregos que odeiam, comprando o que não têm a
menor necessidade.
— Nossa geração não viveu uma grande guerra ou uma grande depressão, mas nós sim, nós vivemos uma grande guerra espiritual. Uma
grande revolução contra a cultura. A grande depressão é a nossa vida. Nossa depressão é espiritual." 

Sei que fui viajante também nas minhas palavras, mas queria deixar registrado de alguma forma as sensações que este livro me provocou. E se você chegou até aqui te peço: por favor leia Clube da Luta!

Se você já viu, concorda ou discorda de mim deixe suas opiniões aqui nos comentários.








8 de agosto de 2014

Deuses Americanos – Neil Gaiman




O interesse por Deuses Americanos nasceu da insistência da Bibi que ouviu um LivroCast sobre o livro, no qual Marcelo Zaniolo e Cia instigaram a pobre alma a ficar desesperada para ler a obra o mais rápido possível.  Daí eu também ouvi o podcast (beijo LivroCast! Somos fãs) e tcharam, me tornei outra alma mega interessada na leitura de Deuses Americanos. O Cast em si é ótimo, mas o que mais me atraiu para o livro foi o trecho que eles leram que é simplesmente um dos trechos mais fantásticos do livro (Ouçam!)". Só que simplesmente não se achava o livro pra comprar (ou se acha a quase 100 reais. A pessoa assalariada aqui não tava podendo) então baixei uma versão digital do livro. 

Agora são 09 horas da manhã enquanto escrevo esse texto. Terminei o livro às 23 horas de ontem e demorei horas pra conseguir dormir. Sonhei com coisas esquisitas e to aqui até agora de ressaca literária com um montão de idéias passando na minha cabeça. Precisava escrever.


O livro começa contando a história de Shadow, que se envolve num crime e está na prisão. Ele está prestes a ser libertado após três anos de pena, desejando muito voltar para sua esposa Laura e com um emprego garantido na academia do seu amigo, Robbie.

As coisas começam a desandar na vida dele quando ele é informado, dias antes de sua saída da prisão, que sua esposa falecera.

Shadow então é liberado antes do tempo e parte para casa para o enterro da esposa e para tentar organizar sua vida.

No avião conhece um Senhor, com um olho de vidro, que se apresenta como Wednesday e lhe oferece um emprego. Shadow acha tudo muito estranho e recusa a oferta.  Ele então, precisa desembarcar num aeroporto diferente do seu destino e percorrer o restante do caminho até sua casa de carro. Quando para num bar na beira da estrada para comer, se depara com ninguém menos que Wednesday, que reitera a oferta de emprego e revela a Shadow que na verdade ele não só não tinha mais esposa, como também não tinha mais emprego uma vez que o amigo também havia morrido no mesmo acidente.

A notícia na página sete foi a primeira descrição que Shadow leu a respeito da morte de sua mulher. Laura Moon, que segundo o artigo tinha 27 anos, e Robbie Burton, 39, estavam no carro de Robbie, na rodovia interestadual, quando desviaram em direção a um caminhão de 32 rodas.
Após o choque, o carro de Robbie saiu rodopiando para o acostamento. Equipes de resgate retiraram Robbie e Laura dos destroços. Os dois estavam mortos quando chegaram ao hospital.

Shadow então aceita trabalhar para Wednesday com um emprego que seria algo como um guarda-costas.

- Eu não gosto de você, senhor Wednesday ou qualquer que seja o seu nome verdadeiro. Nós não somos amigos. Eu não sei como é que você saiu daquele avião sem eu ver, ou como você me perseguiu até aqui. Mas eu estou em um beco sem saída neste momento. Quando terminarmos nosso assunto, eu me mando. E se você me encher o saco, eu me mando também. Até lá, vou trabalhar pra você

Na sua cidade natal Shadow então descobre que sua mulher não só tinha morrido num acidente no mesmo carro que o amigo, como também descobre que eles tinham um caso e que a situação da morte seria o que eu chamo de constrangedora!

- Não contaram pra você? A voz dela estava calma, sem emoção.
- Sua mulher morreu com o pau do meu marido na boca, Shadow.

A partir desse momento então Shadow mergulha de cabeça no que se revela ao longo do livro uma batalha de deuses. Sim, Wednesday é na verdade o Deus da Mitologia Nórdica Odin, que precisa de Shadow para reunir todos os deuses antigos num batalha contra os novos deuses americanos. Louco não?
A história é mais ou menos o seguinte: cada pessoa que veio para colonizar os EUA de todos os lugares do mundo, trouxeram com elas as suas crenças e os seus deuses, deuses nórdicos, africanos, de diversas culturas, mas com o tempo a fé nesses deuses foram enfraquecendo, e novos deuses foram surgindo: a TV, o dinheiro, a internet....



Explico melhor essa história louca com as palavras de Wednesday:

“Quando as pessoas vieram pros Estados Unidos, elas no trouxeram Junto. (...) a terra é vasta. Mas o tempo passou e nosso povo nos abandonou, lembrando de nós apenas como criaturas do Velho Continente, como coisas que não tinham vindo com elas pro Novo. Quem acreditava verdadeiramente em nós morreu, ou parou de acreditar, e fomos abandonados, ficamos perdidos, assustados e sem posses, vivendo de migalhas de adoração e de crença que podíamos encontrar. E fomos sobrevivendo da melhor maneira possível. Então foi isso que fizemos, sobrevivemos à margem das coisas, onde ninguém prestava muita atenção em nós. Hoje temos, vamos admitir, pouca influencia. Fazemos das pessoas nossas presas, tiramos delas e sobrevivemos; nós nos despimos e nos prostituímos e bebemos demais. Pegamos gasolina, roubamos, trapaceamos e existimos nas fendas das margens da sociedade. Somos deuses antigos, aqui neste Novo Continente sem deuses.

Existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartão de crédito e de auto-estrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância. Eles sabem da nossa existência e tem medo de nós, e nos odeiam - disse Odin. - Vocês estão se enganando se acreditam que não. Eles vão nos destruir, se puderem. Ë hora de a gente se agrupar. E hora de agir.”



Pra começar preciso dizer o conhecimento profundo do Neil Gaiman a respeito da história das religiões é base para a construção de todos os personagens do Livro.

Eu praticamente li o livro com o google aberto no computador para ir fazendo pesquisas instantâneas sobre cada deus que vai aparecendo na história.

O mais fantástico da escrita do Gaiman foi mostrar os deuses não como esses seres espectrais, espíritos, mas como pessoas que cruzam com pessoas como nós nas esquinas das ruas.

“Você precisa entender essa coisa de ser deus. Não é magia. E só ser você, mas aquele você em que as pessoas acreditam. É ser a essência concentrada e aumentada de si mesmo. É se transformar em trovão, ou no poder de um cavalo galopante, ou em sabedoria. Você absorve toda a fé e fica maior, mais legal, mais do que humano. Você cristaliza. Ele fez uma pausa.
- Então, um dia esquecem que existe, não acreditam mais em você e não fazem mais sacrifícios... não se importam, e quando você percebe, está misturando cartas pra confundir quem passa na esquina da Broadway com a Rua 43.”

E mais fantástico ainda, ele conseguiu atribuir funções, profissões, ações, às características originais dos deuses descritas na mitologia.

Por exemplo, A deusa Bilquis, conhecida também como a rainha de Sabá, é uma prostituta em Nova Iorque (Inclusive a cena de descrição da adoração a ela no quarto ficará perturbando a minha mente forever! Muito bizarro!).   Outro exemplo são os deuses egípcios Anubis  e Ibis que eram associados em suas culturas aos mortos e sua transição do mundo dos vivos para os mortos, que são donos de uma funerária.
Todos os outros deuses que vão aparecendo são didaticamente ligados as suas personalidades e características em suas culturas: Mad Sweeney, As Zoryas Vechernyaya, Utrennyay e Polunochnaya, Czernobog, Sr. Nancy (Anansi), Horus,  Easter, WhiskeyJack, etc...

Temos, obviamente, Shadow que apesar de se mostrar meio apático apesar da quantidade de insanidades que acontece na vida dele, passa por momentos muito bons de reflexão. Na verdade eu me senti meio como o Shadow. Sabe quando uma situação louca acontece na sua vida e você fica meio amortecido, em estado de choque? E é assim que eu interpretei o Shadow e, da mesma forma que ele, fui tendo todas as sacações progressivamente com o desenrolar da história. Ele passou ao longo do livro por um profundo aprendizado de si mesmo. Foi capaz de perceber que estava mais vivo no momento que fisicamente estava mesmo era mais perto da morte.

“- Estou vivo - disse Shadow. - Eu não estou morto. Lembra?
- Você não está morto, mas também não tenho certeza se está vivo. Não mesmo.”

Outro personagem que pra mim é dos mais loucos é a esposa de Shadow, Laura. Aí você me pergunta “ué, mas a mulher não morreu?”. Sim, caros leitores, ela morreu, mas ela volta do mundo dos mortos, porque sim nada pode ser normal nessa história. E não precisa me xingar dizendo que eu soltei um spoiler porque não vai fazer diferença nenhuma você ler isso, uma vez que não é o fato dela voltar que importa, mas todo o papel que ela vai desempenhar na trama.

“Ele a conhecia, ele a teria identificado no meio de uma multidão de milhares de pessoas, ou de centenas de milhares de pessoas. Ela ainda usava tailleur azul-marinho que tinham colocado nela antes de ser enterrada. Sua voz não passava de um sussurro, mas era familiar:
- Acho - disse Laura - que você vai perguntar o que eu estou fazendo aqui. Shadow não disse nada.
Sentou-se na única cadeira do quarto e, finalmente, perguntou:
- É você mesma?
- Sou. Estou com frio, cachorrinho.
- Você está morta, querida.
- É - ela disse. - É, estou mesmo. Deu uns tapinhas na cama perto de si:
- Vem aqui e senta do meu lado.”



A história central tem sim um fim. Mas Gaiman abre muitos parênteses, MUITOS parênteses no meio da história.

Esses parênteses não se conectam diretamente com a história principal, mas estão relacionadas de uma forma ou de outra com o plano de fundo da história, e em alguns momentos são extremamente esclarecedoras para entender o contexto em si.

Difícil explicar isso sem que a pessoa leia o livro.

No final de tudo, entendi que esse livro também é daqueles que o final em si não é o mais importante, mas sim todo o caminho que é percorrido para que ele aconteça.  Eu imaginei que o final do livro seria bombástico e quando li a ultima página percebi que o bombástico mesmo já vinha acontecendo desde o primeiro capítulo.

Será que consegui explicar?


Deuses americanos pra mim foi um livro extremamente interessante e reflexivo. Salvei várias citações, inclusive até publiquei algumas coisas no meu facebook e no twitter porque eram frases assim tão verdadeiras. Algumas chegavam a ser um soco no estômago.

O livro é uma grande crítica à sociedade atual americana, sua futilidade e desapego.

“- Olha, este país não é bom para os deuses”

Tendo em vista que vivemos numa sociedade de consumo espelhada na sociedade americana, podemos estender a carapuça pra muita gente.
É uma crítica à velocidade com que descartamos não apenas as coisas, mas nossos valores e ideais.

 “- Diz isso pró Wednesday, cara. Diz a ele que ele é passado. Ele está esquecido. Está velho. Diz a ele que nós somos o futuro e não nos importamos nem um pouco com ele ou com alguém do tipo dele. Ele foi mandado para o lixão da história, enquanto gente como eu anda de limusine pela superestrada do futuro.
- Vou dizer - respondeu Shadow.
Ele começava a se sentir zonzo. Torceu para não ficar enjoado.
- Diz a ele que a gente reprogramou a realidade. Diz que a linguagem é um vírus, que a religião é um sistema operacional e que as orações são a mesma coisa que a porra do spam. Diz isso a ele ou eu mato você - disse o jovem do meio da fumaça, docemente.”

É uma critica também a superficialidade da religiosidade. Gente que diz acreditar em algo, mas não o faz por realmente ter fé, mas sim por aquilo ser uma tradição da família ou da cultura.

“Em muitos países, com o passar dos anos, as pessoas passaram a identificar os lugares poderosos. Às vezes era uma formação natural, ou só um lugar que era, de certa forma, especial. Todo mundo sabia que alguma coisa importante acontecia ali, que havia algum ponto de foco, algum canal, alguma janela pro desconhecido. Por isso construíam templos ou catedrais, ou levantavam um círculo de pedra... Você sabe do que estou falando.
- Mas existem igrejas espalhadas pelos Estados Unidos inteiros – disse Shadow.
- Em todas as cidades. Às vezes, em todos os quarteirões. E, nesse contexto, são tão significantes quanto consultórios de dentistas.”

Uma vez que é apenas religiosidade e não fé arraigada no coração das pessoas, elas tendem a substituir esses deuses por outros sem grandes sentimentos.

“Nada disso pode estar acontecendo de verdade. Se você se sentir mais confortável assim, poderia pensar no acontecimento simplesmente como uma metáfora. Religiões são, por definição, metáforas, apesar de tudo: Deus é um sonho, uma esperança, uma mulher, um escritor irônico, um pai, uma cidade, uma casa com muitos quartos, um relojoeiro que deixou seu cronômetro premiado no deserto, alguém que ama você - talvez até, contra todas as evidências, um ente celestial cujo único interesse é assegurar-se de que o seu time de futebol, o seu exército, o seu negócio ou o seu casamento floresça, prospere e triunfe sobre qualquer oposição.”

Em resumo: o livro é genial. Me cansou por vezes no excesso descritivo, nos parênteses enormes e que a princípio não me faziam sentido estar ali. Alguns até acredito não precisariam estar mesmo, mas de uma forma geral é um livro que precisa ser lido e que colocou Gaiman na minha estante de autores preferidos.

(eu sei que não tem nada haver com a história mas é o Gaiman na Tardis - amor!)









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