O interesse por Deuses Americanos nasceu da insistência da Bibi que ouviu um LivroCast sobre o livro, no qual Marcelo Zaniolo e Cia instigaram a pobre alma a ficar desesperada para ler a obra o mais rápido possível. Daí eu também ouvi o podcast (beijo LivroCast! Somos fãs) e tcharam, me tornei outra alma mega interessada na leitura de Deuses Americanos. O Cast em si é ótimo, mas o que mais me atraiu para o livro foi o trecho que eles leram que é simplesmente um dos trechos mais fantásticos do livro (Ouçam!)". Só que simplesmente não se achava o livro pra comprar (ou se acha a quase 100 reais. A pessoa assalariada aqui não tava podendo) então baixei uma versão digital do livro.
O livro
começa contando a história de Shadow, que se envolve num crime e está na
prisão. Ele está prestes a ser libertado após três anos de pena, desejando
muito voltar para sua esposa Laura e com um emprego garantido na academia do
seu amigo, Robbie.
As coisas
começam a desandar na vida dele quando ele é informado, dias antes de sua saída
da prisão, que sua esposa falecera.
Shadow
então é liberado antes do tempo e parte para casa para o enterro da esposa e
para tentar organizar sua vida.
No avião
conhece um Senhor, com um olho de vidro, que se apresenta como Wednesday e lhe
oferece um emprego. Shadow acha tudo muito estranho e recusa a oferta. Ele então, precisa desembarcar num aeroporto
diferente do seu destino e percorrer o restante do caminho até sua casa de
carro. Quando para num bar na beira da estrada para comer, se depara com
ninguém menos que Wednesday, que reitera a oferta de emprego e revela a Shadow
que na verdade ele não só não tinha mais esposa, como também não tinha mais
emprego uma vez que o amigo também havia morrido no mesmo acidente.
A notícia na página sete foi a
primeira descrição que Shadow leu a respeito da morte de sua mulher. Laura
Moon, que segundo o artigo tinha 27 anos, e Robbie Burton, 39, estavam no carro
de Robbie, na rodovia interestadual, quando desviaram em direção a um caminhão
de 32 rodas.
Após o choque, o carro de Robbie saiu
rodopiando para o acostamento. Equipes de resgate retiraram Robbie e Laura dos
destroços. Os dois estavam mortos quando chegaram ao hospital.
Shadow
então aceita trabalhar para Wednesday com um emprego que seria algo como um
guarda-costas.
- Eu não gosto de você, senhor
Wednesday ou qualquer que seja o seu nome verdadeiro. Nós não somos amigos. Eu
não sei como é que você saiu daquele avião sem eu ver, ou como você me
perseguiu até aqui. Mas eu estou em um beco sem saída neste momento. Quando
terminarmos nosso assunto, eu me mando. E se você me encher o saco, eu me mando
também. Até lá, vou trabalhar pra você
Na sua
cidade natal Shadow então descobre que sua mulher não só tinha morrido num
acidente no mesmo carro que o amigo, como também descobre que eles tinham um
caso e que a situação da morte seria o que eu chamo de constrangedora!
- Não contaram pra você? A voz dela estava
calma, sem emoção.
- Sua mulher morreu com o pau do meu marido na
boca, Shadow.
A partir
desse momento então Shadow mergulha de cabeça no que se revela ao longo do
livro uma batalha de deuses. Sim, Wednesday é na verdade o Deus da Mitologia
Nórdica Odin, que precisa de Shadow para reunir todos os deuses antigos num
batalha contra os novos deuses americanos. Louco não?
A história
é mais ou menos o seguinte: cada pessoa que veio para colonizar os EUA de todos
os lugares do mundo, trouxeram com elas as suas crenças e os seus deuses,
deuses nórdicos, africanos, de diversas culturas, mas com o tempo a fé nesses
deuses foram enfraquecendo, e novos deuses foram surgindo: a TV, o dinheiro, a
internet....
Explico
melhor essa história louca com as palavras de Wednesday:
“Quando as pessoas vieram pros Estados
Unidos, elas no trouxeram Junto. (...) a terra é vasta. Mas o tempo passou e
nosso povo nos abandonou, lembrando de nós apenas como criaturas do Velho
Continente, como coisas que não tinham vindo com elas pro Novo. Quem acreditava
verdadeiramente em nós morreu, ou parou de acreditar, e fomos abandonados,
ficamos perdidos, assustados e sem posses, vivendo de migalhas de adoração e de
crença que podíamos encontrar. E fomos sobrevivendo da melhor maneira possível.
Então foi isso que fizemos, sobrevivemos à margem das coisas, onde ninguém
prestava muita atenção em nós. Hoje temos, vamos admitir, pouca influencia.
Fazemos das pessoas nossas presas, tiramos delas e sobrevivemos; nós nos
despimos e nos prostituímos e bebemos demais. Pegamos gasolina, roubamos,
trapaceamos e existimos nas fendas das margens da sociedade. Somos deuses
antigos, aqui neste Novo Continente sem deuses.
Existem novos deuses crescendo nos
Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de
cartão de crédito e de auto-estrada, de internet e de telefone, de rádio, de
hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses
orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria
importância. Eles sabem da nossa existência e tem medo de nós, e nos odeiam -
disse Odin. - Vocês estão se enganando se acreditam que não. Eles vão nos
destruir, se puderem. Ë hora de a gente se agrupar. E hora de agir.”
Pra
começar preciso dizer o conhecimento profundo do Neil Gaiman a respeito da
história das religiões é base para a construção de todos os personagens do
Livro.
Eu
praticamente li o livro com o google aberto no computador para ir fazendo
pesquisas instantâneas sobre cada deus que vai aparecendo na história.
O mais
fantástico da escrita do Gaiman foi mostrar os deuses não como esses seres
espectrais, espíritos, mas como pessoas que cruzam com pessoas como nós nas
esquinas das ruas.
“Você precisa entender essa coisa de
ser deus. Não é magia. E só ser você, mas aquele você em que as pessoas
acreditam. É ser a essência concentrada e aumentada de si mesmo. É se
transformar em trovão, ou no poder de um cavalo galopante, ou em sabedoria.
Você absorve toda a fé e fica maior, mais legal, mais do que humano. Você
cristaliza. Ele fez uma pausa.
- Então, um dia esquecem que existe,
não acreditam mais em você e não fazem mais sacrifícios... não se importam, e
quando você percebe, está misturando cartas pra confundir quem passa na esquina
da Broadway com a Rua 43.”
E mais
fantástico ainda, ele conseguiu atribuir funções, profissões, ações, às
características originais dos deuses descritas na mitologia.
Por
exemplo, A deusa Bilquis, conhecida também como a rainha de Sabá, é uma
prostituta em Nova Iorque (Inclusive a cena de descrição da adoração a ela no
quarto ficará perturbando a minha mente forever!
Muito bizarro!). Outro exemplo são os deuses egípcios
Anubis e Ibis que eram associados em
suas culturas aos mortos e sua transição do mundo dos vivos para os mortos, que
são donos de uma funerária.
Todos os
outros deuses que vão aparecendo são didaticamente ligados as suas
personalidades e características em suas culturas: Mad Sweeney, As Zoryas Vechernyaya,
Utrennyay e Polunochnaya, Czernobog, Sr. Nancy (Anansi), Horus, Easter, WhiskeyJack, etc...
Temos,
obviamente, Shadow que apesar de se mostrar meio apático apesar da quantidade
de insanidades que acontece na vida dele, passa por momentos muito bons de
reflexão. Na verdade eu me senti meio como o Shadow. Sabe quando uma situação
louca acontece na sua vida e você fica meio amortecido, em estado de choque? E
é assim que eu interpretei o Shadow e, da mesma forma que ele, fui tendo todas
as sacações progressivamente com o desenrolar da história. Ele passou ao longo
do livro por um profundo aprendizado de si mesmo. Foi capaz de perceber que
estava mais vivo no momento que fisicamente estava mesmo era mais perto da
morte.
“- Estou vivo - disse Shadow. - Eu não estou
morto. Lembra?
- Você não está morto, mas também não tenho
certeza se está vivo. Não mesmo.”
Outro
personagem que pra mim é dos mais loucos é a esposa de Shadow, Laura. Aí você
me pergunta “ué, mas a mulher não morreu?”.
Sim, caros leitores, ela morreu, mas ela volta do mundo dos mortos, porque sim
nada pode ser normal nessa história. E não precisa me xingar dizendo que eu
soltei um spoiler porque não vai
fazer diferença nenhuma você ler isso, uma vez que não é o fato dela voltar que
importa, mas todo o papel que ela vai desempenhar na trama.
“Ele a conhecia, ele a teria identificado no
meio de uma multidão de milhares de pessoas, ou de centenas de milhares de
pessoas. Ela ainda usava tailleur azul-marinho que tinham colocado nela antes
de ser enterrada. Sua voz não passava de um sussurro, mas era familiar:
- Acho - disse Laura - que você vai perguntar
o que eu estou fazendo aqui. Shadow não disse nada.
Sentou-se na única cadeira do quarto e,
finalmente, perguntou:
- É você mesma?
- Sou. Estou com frio, cachorrinho.
- Você está morta, querida.
- É - ela disse. - É, estou mesmo. Deu uns
tapinhas na cama perto de si:
- Vem aqui e senta do meu lado.”
A história
central tem sim um fim. Mas Gaiman abre muitos parênteses, MUITOS parênteses no
meio da história.
Esses
parênteses não se conectam diretamente com a história principal, mas estão
relacionadas de uma forma ou de outra com o plano de fundo da história, e em
alguns momentos são extremamente esclarecedoras para entender o contexto em si.
Difícil
explicar isso sem que a pessoa leia o livro.
No final
de tudo, entendi que esse livro também é daqueles que o final em si não é o
mais importante, mas sim todo o caminho que é percorrido para que ele
aconteça. Eu imaginei que o final do
livro seria bombástico e quando li a ultima página percebi que o bombástico
mesmo já vinha acontecendo desde o primeiro capítulo.
Será que
consegui explicar?
Deuses
americanos pra mim foi um livro extremamente interessante e reflexivo. Salvei
várias citações, inclusive até publiquei algumas coisas no meu facebook e no
twitter porque eram frases assim tão verdadeiras. Algumas chegavam a ser um
soco no estômago.
O livro é
uma grande crítica à sociedade atual americana, sua futilidade e desapego.
“- Olha, este país não é bom para os deuses”
Tendo em
vista que vivemos numa sociedade de consumo espelhada na sociedade americana,
podemos estender a carapuça pra muita gente.
É uma crítica
à velocidade com que descartamos não apenas as coisas, mas nossos valores e
ideais.
“- Diz
isso pró Wednesday, cara. Diz a ele que ele é passado. Ele está esquecido. Está
velho. Diz a ele que nós somos o futuro e não nos importamos nem um pouco com
ele ou com alguém do tipo dele. Ele foi mandado para o lixão da história,
enquanto gente como eu anda de limusine pela superestrada do futuro.
- Vou dizer - respondeu Shadow.
Ele começava a se sentir zonzo. Torceu para
não ficar enjoado.
- Diz a ele que a gente reprogramou a
realidade. Diz que a linguagem é um vírus, que a religião é um sistema
operacional e que as orações são a mesma coisa que a porra do spam. Diz isso a
ele ou eu mato você - disse o jovem do meio da fumaça, docemente.”
É uma
critica também a superficialidade da religiosidade. Gente que diz acreditar em
algo, mas não o faz por realmente ter fé, mas sim por aquilo ser uma tradição
da família ou da cultura.
“Em muitos países, com o passar dos anos, as
pessoas passaram a identificar os lugares poderosos. Às vezes era uma formação
natural, ou só um lugar que era, de certa forma, especial. Todo mundo sabia que
alguma coisa importante acontecia ali, que havia algum ponto de foco, algum
canal, alguma janela pro desconhecido. Por isso construíam templos ou
catedrais, ou levantavam um círculo de pedra... Você sabe do que estou falando.
- Mas existem igrejas espalhadas pelos Estados
Unidos inteiros – disse Shadow.
- Em todas as cidades. Às vezes, em todos os
quarteirões. E, nesse contexto, são tão significantes quanto consultórios de
dentistas.”
Uma vez
que é apenas religiosidade e não fé arraigada no coração das pessoas, elas
tendem a substituir esses deuses por outros sem grandes sentimentos.
“Nada disso pode estar acontecendo de verdade.
Se você se sentir mais confortável assim, poderia pensar no acontecimento
simplesmente como uma metáfora. Religiões são, por definição, metáforas, apesar
de tudo: Deus é um sonho, uma esperança, uma mulher, um escritor irônico, um
pai, uma cidade, uma casa com muitos quartos, um relojoeiro que deixou seu
cronômetro premiado no deserto, alguém que ama você - talvez até, contra todas
as evidências, um ente celestial cujo único interesse é assegurar-se de que o
seu time de futebol, o seu exército, o seu negócio ou o seu casamento floresça,
prospere e triunfe sobre qualquer oposição.”
Em resumo:
o livro é genial. Me cansou por vezes no excesso descritivo, nos parênteses
enormes e que a princípio não me faziam sentido estar ali. Alguns até acredito
não precisariam estar mesmo, mas de uma forma geral é um livro que precisa ser
lido e que colocou Gaiman na minha estante de autores preferidos.
(eu sei que não tem nada haver com a história mas é o Gaiman na Tardis - amor!)

Olha, queria na seção Spoiler falar de duas “coisas”: Lakeside e Samantha Black Crow.
Sobre
Lakeside minha moral da história foi “sempre desconfie de algo que pareça tão
perfeito”. A cidade parecia um mar de
rosas apesar da história das crianças que desapareciam e eu achei uma sacada
genial do Gaiman dar aquele final sombrio pra história com a sacação do Shadow
de ir atrás do carro em cima do gelo encontrando finalmente a menina morta no
porta-malas. Achei genial a forma como a história foi costurada e vamos lá:
aquele Hinzelmann me enganou direitinho. Juro que não desconfiei de nada até o
final. Pode ser que um de vocês tenha sido mais espertinho.
Sobre Samantha
Black Crow: que personagem top! Amei a Sam, achei o senso de humor dela
fantástico. E pra mim a melhor cena dela no livro é quando ela descreve as
crenças dela para o Shadow para provar que ele poderia confiar nela. Separei
desse trecho enorme do livro os pedaços que mais gostei:
“Posso
acreditar em coisas que são verdade e posso acreditar em coisas que não são
verdade. E posso acreditar em coisas que ninguém sabe se são verdade ou não.
Acredito
que sabonetes antibactericidas estão destruindo nossa resistência à sujeira e
às doenças, de modo que algum dia todos seremos dizimados por uma gripe comum,
como aconteceu com os marcianos em Guerra dos Mundos.
Acho que o
destino da humanidade está escrito nas estrelas, que o gosto dos doces era
mesmo melhor quando eu era criança, que aerodinamicamente é impossível pra uma
abelha grande voar, que a luz é uma onda e uma partícula, que tem um gato em
uma caixa em algum lugar que está vivo e que está morto ao mesmo tempo (apesar
de que, se não abrirem a caixa algum dia e alimentarem o bicho, ele no fim vai
ficar só morto de dois jeitos).
Acredito
que qualquer pessoa que diz que o sexo é supervalorizado nunca fez direito, que
qualquer um que diz saber o que está acontecendo pode mentir a respeito de
coisas pequenas.
Acredito
na honestidade absoluta e em mentiras sociais sensatas.
Acredito
que a vida é um jogo, uma piada cruel e que a vida é o que acontece quando se
está vivo e o melhor é relaxar e aproveitar.”
Não tem
mais nada pra dizer depois disso não é mesmo?
Fotos: Google imagens



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