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8 de agosto de 2014

Deuses Americanos – Neil Gaiman




O interesse por Deuses Americanos nasceu da insistência da Bibi que ouviu um LivroCast sobre o livro, no qual Marcelo Zaniolo e Cia instigaram a pobre alma a ficar desesperada para ler a obra o mais rápido possível.  Daí eu também ouvi o podcast (beijo LivroCast! Somos fãs) e tcharam, me tornei outra alma mega interessada na leitura de Deuses Americanos. O Cast em si é ótimo, mas o que mais me atraiu para o livro foi o trecho que eles leram que é simplesmente um dos trechos mais fantásticos do livro (Ouçam!)". Só que simplesmente não se achava o livro pra comprar (ou se acha a quase 100 reais. A pessoa assalariada aqui não tava podendo) então baixei uma versão digital do livro. 

Agora são 09 horas da manhã enquanto escrevo esse texto. Terminei o livro às 23 horas de ontem e demorei horas pra conseguir dormir. Sonhei com coisas esquisitas e to aqui até agora de ressaca literária com um montão de idéias passando na minha cabeça. Precisava escrever.


O livro começa contando a história de Shadow, que se envolve num crime e está na prisão. Ele está prestes a ser libertado após três anos de pena, desejando muito voltar para sua esposa Laura e com um emprego garantido na academia do seu amigo, Robbie.

As coisas começam a desandar na vida dele quando ele é informado, dias antes de sua saída da prisão, que sua esposa falecera.

Shadow então é liberado antes do tempo e parte para casa para o enterro da esposa e para tentar organizar sua vida.

No avião conhece um Senhor, com um olho de vidro, que se apresenta como Wednesday e lhe oferece um emprego. Shadow acha tudo muito estranho e recusa a oferta.  Ele então, precisa desembarcar num aeroporto diferente do seu destino e percorrer o restante do caminho até sua casa de carro. Quando para num bar na beira da estrada para comer, se depara com ninguém menos que Wednesday, que reitera a oferta de emprego e revela a Shadow que na verdade ele não só não tinha mais esposa, como também não tinha mais emprego uma vez que o amigo também havia morrido no mesmo acidente.

A notícia na página sete foi a primeira descrição que Shadow leu a respeito da morte de sua mulher. Laura Moon, que segundo o artigo tinha 27 anos, e Robbie Burton, 39, estavam no carro de Robbie, na rodovia interestadual, quando desviaram em direção a um caminhão de 32 rodas.
Após o choque, o carro de Robbie saiu rodopiando para o acostamento. Equipes de resgate retiraram Robbie e Laura dos destroços. Os dois estavam mortos quando chegaram ao hospital.

Shadow então aceita trabalhar para Wednesday com um emprego que seria algo como um guarda-costas.

- Eu não gosto de você, senhor Wednesday ou qualquer que seja o seu nome verdadeiro. Nós não somos amigos. Eu não sei como é que você saiu daquele avião sem eu ver, ou como você me perseguiu até aqui. Mas eu estou em um beco sem saída neste momento. Quando terminarmos nosso assunto, eu me mando. E se você me encher o saco, eu me mando também. Até lá, vou trabalhar pra você

Na sua cidade natal Shadow então descobre que sua mulher não só tinha morrido num acidente no mesmo carro que o amigo, como também descobre que eles tinham um caso e que a situação da morte seria o que eu chamo de constrangedora!

- Não contaram pra você? A voz dela estava calma, sem emoção.
- Sua mulher morreu com o pau do meu marido na boca, Shadow.

A partir desse momento então Shadow mergulha de cabeça no que se revela ao longo do livro uma batalha de deuses. Sim, Wednesday é na verdade o Deus da Mitologia Nórdica Odin, que precisa de Shadow para reunir todos os deuses antigos num batalha contra os novos deuses americanos. Louco não?
A história é mais ou menos o seguinte: cada pessoa que veio para colonizar os EUA de todos os lugares do mundo, trouxeram com elas as suas crenças e os seus deuses, deuses nórdicos, africanos, de diversas culturas, mas com o tempo a fé nesses deuses foram enfraquecendo, e novos deuses foram surgindo: a TV, o dinheiro, a internet....



Explico melhor essa história louca com as palavras de Wednesday:

“Quando as pessoas vieram pros Estados Unidos, elas no trouxeram Junto. (...) a terra é vasta. Mas o tempo passou e nosso povo nos abandonou, lembrando de nós apenas como criaturas do Velho Continente, como coisas que não tinham vindo com elas pro Novo. Quem acreditava verdadeiramente em nós morreu, ou parou de acreditar, e fomos abandonados, ficamos perdidos, assustados e sem posses, vivendo de migalhas de adoração e de crença que podíamos encontrar. E fomos sobrevivendo da melhor maneira possível. Então foi isso que fizemos, sobrevivemos à margem das coisas, onde ninguém prestava muita atenção em nós. Hoje temos, vamos admitir, pouca influencia. Fazemos das pessoas nossas presas, tiramos delas e sobrevivemos; nós nos despimos e nos prostituímos e bebemos demais. Pegamos gasolina, roubamos, trapaceamos e existimos nas fendas das margens da sociedade. Somos deuses antigos, aqui neste Novo Continente sem deuses.

Existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartão de crédito e de auto-estrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância. Eles sabem da nossa existência e tem medo de nós, e nos odeiam - disse Odin. - Vocês estão se enganando se acreditam que não. Eles vão nos destruir, se puderem. Ë hora de a gente se agrupar. E hora de agir.”



Pra começar preciso dizer o conhecimento profundo do Neil Gaiman a respeito da história das religiões é base para a construção de todos os personagens do Livro.

Eu praticamente li o livro com o google aberto no computador para ir fazendo pesquisas instantâneas sobre cada deus que vai aparecendo na história.

O mais fantástico da escrita do Gaiman foi mostrar os deuses não como esses seres espectrais, espíritos, mas como pessoas que cruzam com pessoas como nós nas esquinas das ruas.

“Você precisa entender essa coisa de ser deus. Não é magia. E só ser você, mas aquele você em que as pessoas acreditam. É ser a essência concentrada e aumentada de si mesmo. É se transformar em trovão, ou no poder de um cavalo galopante, ou em sabedoria. Você absorve toda a fé e fica maior, mais legal, mais do que humano. Você cristaliza. Ele fez uma pausa.
- Então, um dia esquecem que existe, não acreditam mais em você e não fazem mais sacrifícios... não se importam, e quando você percebe, está misturando cartas pra confundir quem passa na esquina da Broadway com a Rua 43.”

E mais fantástico ainda, ele conseguiu atribuir funções, profissões, ações, às características originais dos deuses descritas na mitologia.

Por exemplo, A deusa Bilquis, conhecida também como a rainha de Sabá, é uma prostituta em Nova Iorque (Inclusive a cena de descrição da adoração a ela no quarto ficará perturbando a minha mente forever! Muito bizarro!).   Outro exemplo são os deuses egípcios Anubis  e Ibis que eram associados em suas culturas aos mortos e sua transição do mundo dos vivos para os mortos, que são donos de uma funerária.
Todos os outros deuses que vão aparecendo são didaticamente ligados as suas personalidades e características em suas culturas: Mad Sweeney, As Zoryas Vechernyaya, Utrennyay e Polunochnaya, Czernobog, Sr. Nancy (Anansi), Horus,  Easter, WhiskeyJack, etc...

Temos, obviamente, Shadow que apesar de se mostrar meio apático apesar da quantidade de insanidades que acontece na vida dele, passa por momentos muito bons de reflexão. Na verdade eu me senti meio como o Shadow. Sabe quando uma situação louca acontece na sua vida e você fica meio amortecido, em estado de choque? E é assim que eu interpretei o Shadow e, da mesma forma que ele, fui tendo todas as sacações progressivamente com o desenrolar da história. Ele passou ao longo do livro por um profundo aprendizado de si mesmo. Foi capaz de perceber que estava mais vivo no momento que fisicamente estava mesmo era mais perto da morte.

“- Estou vivo - disse Shadow. - Eu não estou morto. Lembra?
- Você não está morto, mas também não tenho certeza se está vivo. Não mesmo.”

Outro personagem que pra mim é dos mais loucos é a esposa de Shadow, Laura. Aí você me pergunta “ué, mas a mulher não morreu?”. Sim, caros leitores, ela morreu, mas ela volta do mundo dos mortos, porque sim nada pode ser normal nessa história. E não precisa me xingar dizendo que eu soltei um spoiler porque não vai fazer diferença nenhuma você ler isso, uma vez que não é o fato dela voltar que importa, mas todo o papel que ela vai desempenhar na trama.

“Ele a conhecia, ele a teria identificado no meio de uma multidão de milhares de pessoas, ou de centenas de milhares de pessoas. Ela ainda usava tailleur azul-marinho que tinham colocado nela antes de ser enterrada. Sua voz não passava de um sussurro, mas era familiar:
- Acho - disse Laura - que você vai perguntar o que eu estou fazendo aqui. Shadow não disse nada.
Sentou-se na única cadeira do quarto e, finalmente, perguntou:
- É você mesma?
- Sou. Estou com frio, cachorrinho.
- Você está morta, querida.
- É - ela disse. - É, estou mesmo. Deu uns tapinhas na cama perto de si:
- Vem aqui e senta do meu lado.”



A história central tem sim um fim. Mas Gaiman abre muitos parênteses, MUITOS parênteses no meio da história.

Esses parênteses não se conectam diretamente com a história principal, mas estão relacionadas de uma forma ou de outra com o plano de fundo da história, e em alguns momentos são extremamente esclarecedoras para entender o contexto em si.

Difícil explicar isso sem que a pessoa leia o livro.

No final de tudo, entendi que esse livro também é daqueles que o final em si não é o mais importante, mas sim todo o caminho que é percorrido para que ele aconteça.  Eu imaginei que o final do livro seria bombástico e quando li a ultima página percebi que o bombástico mesmo já vinha acontecendo desde o primeiro capítulo.

Será que consegui explicar?


Deuses americanos pra mim foi um livro extremamente interessante e reflexivo. Salvei várias citações, inclusive até publiquei algumas coisas no meu facebook e no twitter porque eram frases assim tão verdadeiras. Algumas chegavam a ser um soco no estômago.

O livro é uma grande crítica à sociedade atual americana, sua futilidade e desapego.

“- Olha, este país não é bom para os deuses”

Tendo em vista que vivemos numa sociedade de consumo espelhada na sociedade americana, podemos estender a carapuça pra muita gente.
É uma crítica à velocidade com que descartamos não apenas as coisas, mas nossos valores e ideais.

 “- Diz isso pró Wednesday, cara. Diz a ele que ele é passado. Ele está esquecido. Está velho. Diz a ele que nós somos o futuro e não nos importamos nem um pouco com ele ou com alguém do tipo dele. Ele foi mandado para o lixão da história, enquanto gente como eu anda de limusine pela superestrada do futuro.
- Vou dizer - respondeu Shadow.
Ele começava a se sentir zonzo. Torceu para não ficar enjoado.
- Diz a ele que a gente reprogramou a realidade. Diz que a linguagem é um vírus, que a religião é um sistema operacional e que as orações são a mesma coisa que a porra do spam. Diz isso a ele ou eu mato você - disse o jovem do meio da fumaça, docemente.”

É uma critica também a superficialidade da religiosidade. Gente que diz acreditar em algo, mas não o faz por realmente ter fé, mas sim por aquilo ser uma tradição da família ou da cultura.

“Em muitos países, com o passar dos anos, as pessoas passaram a identificar os lugares poderosos. Às vezes era uma formação natural, ou só um lugar que era, de certa forma, especial. Todo mundo sabia que alguma coisa importante acontecia ali, que havia algum ponto de foco, algum canal, alguma janela pro desconhecido. Por isso construíam templos ou catedrais, ou levantavam um círculo de pedra... Você sabe do que estou falando.
- Mas existem igrejas espalhadas pelos Estados Unidos inteiros – disse Shadow.
- Em todas as cidades. Às vezes, em todos os quarteirões. E, nesse contexto, são tão significantes quanto consultórios de dentistas.”

Uma vez que é apenas religiosidade e não fé arraigada no coração das pessoas, elas tendem a substituir esses deuses por outros sem grandes sentimentos.

“Nada disso pode estar acontecendo de verdade. Se você se sentir mais confortável assim, poderia pensar no acontecimento simplesmente como uma metáfora. Religiões são, por definição, metáforas, apesar de tudo: Deus é um sonho, uma esperança, uma mulher, um escritor irônico, um pai, uma cidade, uma casa com muitos quartos, um relojoeiro que deixou seu cronômetro premiado no deserto, alguém que ama você - talvez até, contra todas as evidências, um ente celestial cujo único interesse é assegurar-se de que o seu time de futebol, o seu exército, o seu negócio ou o seu casamento floresça, prospere e triunfe sobre qualquer oposição.”

Em resumo: o livro é genial. Me cansou por vezes no excesso descritivo, nos parênteses enormes e que a princípio não me faziam sentido estar ali. Alguns até acredito não precisariam estar mesmo, mas de uma forma geral é um livro que precisa ser lido e que colocou Gaiman na minha estante de autores preferidos.

(eu sei que não tem nada haver com a história mas é o Gaiman na Tardis - amor!)














Olha, queria na seção Spoiler falar de duas “coisas”: Lakeside e Samantha Black Crow.

Sobre Lakeside minha moral da história foi “sempre desconfie de algo que pareça tão perfeito”.  A cidade parecia um mar de rosas apesar da história das crianças que desapareciam e eu achei uma sacada genial do Gaiman dar aquele final sombrio pra história com a sacação do Shadow de ir atrás do carro em cima do gelo encontrando finalmente a menina morta no porta-malas. Achei genial a forma como a história foi costurada e vamos lá: aquele Hinzelmann me enganou direitinho. Juro que não desconfiei de nada até o final. Pode ser que um de vocês tenha sido mais espertinho.

Sobre Samantha Black Crow: que personagem top! Amei a Sam, achei o senso de humor dela fantástico. E pra mim a melhor cena dela no livro é quando ela descreve as crenças dela para o Shadow para provar que ele poderia confiar nela. Separei desse trecho enorme do livro os pedaços que mais gostei:


“Posso acreditar em coisas que são verdade e posso acreditar em coisas que não são verdade. E posso acreditar em coisas que ninguém sabe se são verdade ou não.

Acredito que sabonetes antibactericidas estão destruindo nossa resistência à sujeira e às doenças, de modo que algum dia todos seremos dizimados por uma gripe comum, como aconteceu com os marcianos em Guerra dos Mundos.

Acho que o destino da humanidade está escrito nas estrelas, que o gosto dos doces era mesmo melhor quando eu era criança, que aerodinamicamente é impossível pra uma abelha grande voar, que a luz é uma onda e uma partícula, que tem um gato em uma caixa em algum lugar que está vivo e que está morto ao mesmo tempo (apesar de que, se não abrirem a caixa algum dia e alimentarem o bicho, ele no fim vai ficar só morto de dois jeitos).

Acredito que qualquer pessoa que diz que o sexo é supervalorizado nunca fez direito, que qualquer um que diz saber o que está acontecendo pode mentir a respeito de coisas pequenas.

Acredito na honestidade absoluta e em mentiras sociais sensatas.

Acredito que a vida é um jogo, uma piada cruel e que a vida é o que acontece quando se está vivo e o melhor é relaxar e aproveitar.”

Não tem mais nada pra dizer depois disso não é mesmo?


Fotos: Google imagens


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