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5 de agosto de 2014

A Luz na Porta


Hoje o dia começou, mais uma vez, na estrada. Quilômetros e quilômetros passando.


Faixa contínua, faixa pontilhada, faixa contínua, faixa pontilhada.


No fim do caminho uma reunião barulhenta, gente da comunidade, numa casa paroquial antiga. 


Enquanto todos chegavam me sentei. Comecei a mexer no celular, olhar as redes sociais, interagir com um mundo de pessoas a muitos quilômetros de mim. 


Num relance, enquanto o 3g lentíssimo carregava uma reportagem qualquer, me virei e dei de cara com uma porta antiga. Semi-aberta.


A luz entrava por essa porta de uma forma plástica, artística. Ressaltava aos olhos aqueles ladrilhos hidráulicos com uma estampa anos 70, desgastados, desbotados.


Vi uma beleza incomum naquilo, saquei o celular, fotografei. Sei que tem gente no mundo que entenderia a beleza disso.


Ironia. O mundo virtual veria uma beleza naquilo, talvez houvessem várias curtidas no meu instagram. Mas esse mundo. As pessoas que frequentam essa casa paroquial. Que levam suas vidas pacatas sem nem saber o que é 3g, essas pessoas não estão nem aí para o mundo.


Não interessa em quantas cores ele se pinte, em quantos caracteres ele consiga se descrever, essas pessoas veem a beleza da vida e dão importância ao que vivem alí naquele local. Não interessa se o piso é ultrapassado e a cor das portas não está na moda.


Elas sabem que a Mariazinha casada com o Joãozinho agora tá vendendo bolo pra fora. Elas sabem que a filha da Dona Joana, tá passando mal e talvez tenham que levar pra cidade pra fazer uma cirurgia. Elas sabem quem é o Seu Alcir, dono da borracharia. Elas pegam compras no mercadinho e deixa anotado na caderneta do seu Geraldo que no fim do mês, quando der um pulo lá na casa dela pra tomar café, ela paga.


Nunca imaginei na minha vida que rumo ela tomaria. Que a mocinha que nasceu e cresceu na cidade agora estaria aqui, num interiorzão, a muitos e muitos quilômetros do shopping mais próximo.


Mas também não imaginei que pudesse, nessa fase da minha vida aprender tantas lições.


O interior me fez perceber que não há nada tão urgente que você não possa parar dois minutinhos pra trocar um dedo de prosa com sua vizinha que é uma senhorinha solitária que passa o dia com as netas. Nunca imaginaria que essa mesma senhorinha pudesse ensinar tanto a respeito de perseverança e de como a vida pode ser imprevisível e dolorida pra qualquer um. 


O interior me fez perceber que bom mesmo é estar com as pessoas, e como é delicioso encontra-lás pessoalmente, e não por email, ou twitter, ou facebook, ou etc. Estou aqui longe de todos os meus melhores amigos e só assim percebi o quanto era valorosa a dádiva de tê-los ao alcance de uma ligação telefônica “vamos num barzinho hoje à noite?”.


Me fez perceber que ainda existe gente no mundo que mesmo com seus preconceitos e moralismos, não se importam com o que você tem ou mostra que tem, mas se importam com o que você é.


Sabe, eu gostava de me arrumar, ainda gosto. Às vezes penso “poxa ninguém me convida pra uma festa pra eu fazer uma maquiagem legal”. Aqui eu visto calça jeans e ninguém quer saber se ela é de marca. Aqui ninguém faz ideia qual é a cor Pantone do ano. Aqui ninguém sabe que esse brinco que eu tô usando é inspirado numa criação quentíssima da Dior. Ninguém simplesmente se importa com isso.


Eu precisei entender que não iria conquistar as pessoas pelo que eu tinha ou demonstrava ser, mas sim pelo que eu era. Tenho que ser duplamente educada, tenho que ser duplamente sincera, tenho que ser duplamente competente no meu trabalho. 


E quando eu volto pra casa, na cidade grande, no fim de semana, e olho para as pessoas, tenho me sentido uma estranha por lá também. Como se agora eu não pertencesse mais. Como se aquilo tudo não me deslumbrasse mais. 



Aquela luz na porta me fez perceber que vir pra esse lugar foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.  Me senti como aqueles ladrilhos hidráulicos. Esquisitos, fora de moda, desgastados, mas com uma beleza única conquistada pela experiência


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