Por uma coincidência do ~cosmos~ vários
blogueiros e podcasters que eu acompanho falaram ou citaram esse livro nas
ultimas semanas. Na maioria das vezes o colocando entre um dos melhores livros
lidos.
A curiosidade logo foi despertada,
principalmente porque ainda não havia assistido ao filme de mesmo nome, então
iria ler o livro sem estar contaminada pela adaptação cinematográfica. O resultado desses dois ou três dias lendo
esse livro é mais que uma opinião sobre a obra, é meio que uma declaração de
amor. Um texto que mexeu comigo em níveis que não dá pra explicar.
Clube da Luta narra a história de um homem
insone e entediado, empregado numa empresa de Recall de carros e que acha que
sua vida é perfeita demais.
“Você compra móveis. E pensa, este é o último
sofá que vou comprar na vida. Compra o sofá, e por um par de anos fica
satisfeito porque, aconteça o que acontecer, ao menos tem o seu sofá. Depois
precisa de um bom aparelho de jantar. Depois de uma cama perfeita. De cortinas.
E de tapetes. Então cai prisioneiro de seu adorável ninho, e as coisas que
antes lhe pertenciam passam a possuir você. Sabe aqueles carros
superconservados que parecem ter saído direto da vitrine do revendedor em 1955,
acho um desperdício.“
Para se sentir mais vivo e amenizar essa
sensação de que tudo estava perfeito demais, esse homem passa a frequentar
grupos de apoio. Desses que as pessoas compartilham suas malezas num tratamento
psicológico coletivo. E ele frequenta vários: pessoas com câncer no testículo,
pessoas com parasitas cerebrais, entre outros.
Mas nenhum desses grupos se tornou tão eficaz
no seu objetivo que o Clube da Luta. Criado pelo homem e por Tyler Durden, seu,
digamos, amigo.
O apartamento dele sofre uma explosão e ele vai
morar com Tyler. Então toda a loucura do clube da luta chega a todos os limites
possíveis.
“Tyler
fica embaixo da única lâmpada no meio do porão escuro e vê a luz refletida em
centenas de olhos. A primeira coisa que Tyler grita é:
— A
primeira regra do clube da luta é não falar do clube da luta.
— A
segunda regra do clube da luta é não falar do clube da luta.
Tyler fica
sob a única lâmpada em plena madrugada, no porão repleto de homens, e passa as
outras regras: dois homens por luta, uma luta por vez, sem camisa e sem
sapatos, a luta só termina quando os dois quiserem.
— E a
sétima regra é: se esta é a sua primeira noite no clube da luta, você
tem de
lutar.”
Foi nessa viagem do Clube da Luta que eu mais
pirei. O importante enquanto se estava lutando não era ganhar a luta, era
simplesmente se sentir vivo dentro daquela experiência agressiva.
“O auto-aperfeiçoameno talvez não seja a
solução. A solução talvez seja a autodestruição. [...] Você não se sente tão
vivo em nenhum outro lugar como no clube da luta. Quando estão só você e o
outro cara embaixo da lâmpada e toda aquela gente assistindo. Clube da luta não
tem nada que ver com ganhar ou perder lutas. [...] Há gritos histéricos e
línguas estranhas como nas igrejas, mas quando você acorda no domingo à tarde
se sente salvo.”
Não importa se você é médico ou gari, não
importa se você tem 1 milhão de dólares no banco ou é um fudido que deve até as
calças, no clube todos eram iguais, buscando o mesmo objetivo: se sentir vivo!
Colocar para fora todas as mazelas da alma que cada uma daquelas pessoas
sentia. O clube da Luta esgotava o excesso de energia negativa, o desânimo para
enfrentar suas rotinas, a monotonia de uma vida cheia de regras e horários a
serem cumpridos.
“Você não é um floco de neve, bonito e único.
É a matéria orgânica em decomposição como todo mundo e todos fazemos parte da
mesma composteira. A nossa cultura nos
tornou todos iguais. Mas ninguém é mais branco, mais preto ou mais rico. Todos
queremos a mesma coisa.Individualmente, não somos nada.”
O clube da Luta então se projeta para algo
ainda mais agressivo e ideológico: O Projeto de Ações Violentas. Nesse momento
diversos clubes da luta haviam sido criados por todos os lados e Tyler, o
idealizador de tudo, já não estava satisfeito apenas com as sensações advindas
do clube, ele precisava de mais.
“É possível criar tolerância à luta, por isso
eu talvez precisasse de algo mais forte. Foi nessa manhã que Tyler inventou o
Projeto de Ações Violentas. Tyler perguntou com que eu estava lutando. Sabe as
coisas que Tyler diz sobre ser um merda, um escravo da história? Pois era assim
que eu me sentia. Queria destruir tudo de belo que nunca tive. [...] Queria que
o mundo todo chegasse ao fundo. É o Projeto de Ações Violentas que vai salvar o
mundo. A era glacial da cultura. A era do obscurantismo prematuramente
induzido. O Projetode Ações Violentas forçará a humanidade a entrar em estado
de dormência ou de enfraquecimento o tempo que for preciso para a Terra
se recuperar.
— Você justifica a anarquia — diz Tyler. —
Você a compreende. O que o clube da luta faz pelos escriturários e bilheteiros,
o Projeto deAções Violentas fará pela civilização, para que façamos algo de bom
pelo mundo. Esse é o objetivo do Projeto de Ações Violentas, diz Tyler, a
destruição mais completa e direta da civilização.”
Alem do
“homem” e de Tyler Durden conhecemos também Marla Singer que conhece nosso
narrador num dos grupos de apoio, o de câncer nos testículos. Óbvio que ela
também era uma impostora então o homem e ela passam a se odiar por um estar
invadindo o espaço do outro. Só que Marla começa um relacionamento com Tyler e
tudo fica muito confuso. O homem e Marla passam a dividir os horários nos
grupos para não se encontrarem. A Marla
frequenta toda a história contribuindo com ela em partes cruciais. É uma
personagem que consegue ser profundamente descrito mesmo aparecendo na
história, pelo menos no começo, nas bordas dos pensamentos do homem, que nos
narra a história.
Todos os
outros personagens são mais ou menos superficiais, o chefe do homem, os chefes
de Tyler, pessoas dos grupos de apoio, números do clube da luta e do projeto de
ações violentas que acaba tendo uma sede na casa de Tyler, onde ele abriga
alguns homens que abrem mão de suas vidas para obedecer cegamente a Tyler e
suas ideias. Como fachada para o projeto de ações violentas, eles fazem e
vendem sabões sob o nome de Paper Street SoapCompany (daí a capa com imagem de sabão). O que os compradores não
sabem são os meios obscuros pelos quais são adquiridas as “banhas” para preparo
do sabão. E isso não dá pra explorar por
aqui sem dar spoilers que estragariam a sua experiência com o livro.
Me
assustou e me encantou também a inconseqüência dos personagens. Na verdade a
profunda fé que eles tinhas nas propostas de Tyler Durden, em como aquilo
poderia trazer algo de positivo para eles a ponto de eles o seguirem cegamente.
“— Se você é macho, é cristão e mora nos
Estados Unidos, seu pai é o seu modelo de Deus. Se você não conhece seu pai, se
ele sumiu ou morreu ou se nunca estava em casa, você acredita em Deus?
— E o que você acaba fazendo — diz o mecânico
é passar a vida procurando pelo pai e por Deus. Pense na possibilidade de Deus
não gostar de você. É possível que Deus odeie a gente. Não é a pior coisa que
pode acontecer — continua ele. Para Tyler, é melhor chamar a atenção de Deus
por ser mau do que não ter nenhuma atenção por ser bom. Talvez o ódio de Deus
seja melhor que a sua indiferença. Se você pudesse ser o pior inimigo de Deus
ou não ser nada, o que escolheria? Somos os filhos do meio de Deus, segundo
Tyler Durden, e não temos um lugar na história nem merecemos atenção especial. Se
não conseguirmos chamar a atenção de Deus, não teremos a menor chance de
condenação ou de redenção. O que é pior, o inferno ou nada?
Só se formos pegos e punidos poderemos ser
salvos.”
A história
vai sendo contada pelo homem e vai fazendo sentido aos poucos.
O autor te joga um monte de fatos em sequência e fecha todos eles lindamente no
final. Mais que isso, o autor vai jogando revelações capítulo após capítulo te
deixando cada vez mais grudado no livro, na história, no homem, em Tyler Durden
e toda a loucura que os cercam.
Eu fiquei
satisfeita com os fim de todos os parênteses abertos pelo autor .
Como eu
disse no início é difícil explicar o quanto esse livro mexeu comigo. Esse tapa
na cara com a mensagem de: veja só que vida inútil que você leva, veja só como
você abre mão das coisas que você sonha para atender anseios que nunca foram
seus, mas que são dessa sociedade que tenta te ditar o que é sucesso, o que
deve ser felicidade.
“Se você estiver no clube da luta, tanto faz o
dinheiro que tenha no banco. Você não é o que faz para viver. Você não é a sua
família e não é quem pensa que é.
O mecânico grita para o alto:
— Você não é o seu nome.
— Você não é os seus problemas.
— Você não é os seus problemas.
— Você não é a idade que tem.”
O homem, nosso narrador, tinha tudo que muitas
julgam ser felicidade, ele e tantos outros membros do clube da luta: ricos, bem
sucedidos. Mas todos eles sentiam a mesma coisa, se sentiam amortecidos. Como
se suas vidas não tivessem nenhum sentido. E o clube da Luta surgiu como uma
resposta. De repente mesmo com os rostos machucados e uma ou duas costelas
quebradas eles passaram a se sentirem mais felizes, a não se irritar no
trânsito, a descobrir pequenos prazeres diários. O clube da luta era uma
porrada de realidade. Literalmente.
"Uma semana depois do clube da luta, você ainda
dirige no limite de velocidade sem nenhum problema. Talvez esteja passando o
inferno com os ferimentos internos há uns dois dias, mas nunca esteve tão
calmo. Os carros passam por você. Grudam no seu pára-choque. Os motoristas erguem um dedo para você. Gente
completamente estranha que o odeia. Não é nada pessoal. Depois do clube da
luta, você fica tão relaxado que tanto faz. Nem lembra de ligar o rádio. Talvez
sinta uma pontada nas costelas ao inspirar por causa de uma fratura da grossura
de um fio de cabelo. Os carros atrás piscam os faróis. O sol se põe, laranja e
dourado."
Clube da Luta é nada mais que uma análise
visceral da loucura que é a nossa sociedade atual. É como se o Chuck Palahniuk
tivesse colocado uma lente de aumento dentro da cabeça das pessoas. Me senti
uma expectadora das loucuras mais profundas da mente moderna que são barradas
todos os dias pelos “superegos”de gente comum por aí. Loucuras que só precisam de um certo nível de desordem
mental para acontecer.
" — O que a arma faz é direcionar a explosão.
— Você tem uma classe de mulheres e homens
jovens e fortes que estão dispostos a dar a vida por alguma coisa. A
publicidade persegue
essa gente com carros e roupas desnecessários.
As gerações vêm trabalhando em empregos que odeiam, comprando o que não têm a
menor necessidade.
— Nossa geração não viveu uma grande guerra ou
uma grande depressão, mas nós sim, nós vivemos uma grande guerra espiritual.
Uma
grande revolução contra a cultura. A grande
depressão é a nossa vida. Nossa depressão é espiritual."
Sei que fui viajante também nas minhas
palavras, mas queria deixar registrado de alguma forma as sensações que este
livro me provocou. E se você chegou até aqui te peço: por favor leia Clube da
Luta!
Se você já viu, concorda ou discorda de mim
deixe suas opiniões aqui nos comentários.
Bom quando
eu comecei a ler o livro, eu já sabia que o narrador sem nome e Tyler Durden
eram a mesma pessoa. Nunca assisti o filme mas ouvi em algum lugar que nem me
lembro onde.
Mas
confesso que esse fato não mudou minhas impressões da obra. Pelo contrário,
teve momentos inclusive que eu questionei se eu havia realmente ouvido essa
informação corretamente, Fui ludibriada pela minha própria mente a acreditar em
alguns momentos que os dois eram pessoas diferentes.
Achei
genial a forma como o autor conta para o leitor que o narrador possui dupla
personalidade.
Outro
trecho do livro que me impressionou muito e que mexeu com a minha cabeça foi
quando o narrador/Tyler abordam um rapaz saindo do trabalho, coloca a arma na
cabeça dele e começa a perguntar sobre o que ele quer fazer da vida, sobre o
que ele sonha. Então o rapaz desesperado não consegue responder e diz que só
quer voltar para casa.
Então Tyler faz ele confessar que na verdade queria
mesmo era ser veterinário e o faz prometer que irá sair dali e mudar a vida
dele. Promete que irá vigiá-lo para saber se cumpriu a promessa ao custo da
vida do rapaz se ele não cumprisse. Me senti ali naquela situação, com uma arma
na cabeça e pensando no que eu responderia, se estou realmente feliz e vivendo
meus sonhos ou apenas sobrevivendo. Sei lá. Apenas loucuras.
"O que Raymond Hessel quer ser quando crescer?
Ir para casa, você disse que só queria ir para
casa, por favor. Besteira, eu disse. E então, como gostaria de viver? Se
pudesse fazer qualquer coisa. Realizar alguma coisa. Você não sabia.
Então você já está morto, disse."


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