imagem daqui
Se vestir para trabalhar naquele dia mais ou menos era uma batalha interna. Não sabia se colocava um casaco porque pirigava esfriar mais ou colocava uma regata porque corria o risco do sol abrir e esquentar.
Quando começa assim o dia, as coisas meio que parecem sem graça. Sem vida. Cinza.
Assim que colocou os pés na rua sabia que tinha feito a escolha errada. Um vento gelado cortava a pele do pescoço exposto pelo cabelo recém cortado.
Queria mudar. Externar o que vivia dentro de si. Foram alguns anos naquela mesma rotina. Nunca gostou de uma vida com roteiro, mas acostumara-se. Estava no processo de autorreconhecimento de que a zona de conforto podia ser boa até que ele resolveu que não queria mais e partiu. Ele que parecia tão certo de que dividir aquele mesmo teto não iria afetar em nada tudo de incrível que viviam. Parece que o jogo virou. Fazia exatos dois meses que o turbilhão começou.
As ruas parecem estranhas em dias assim. As pessoas meio encolhidas, uns casacos fedidos tirados dos fundos dos armários. As pessoas se apressando em entrar nos coletivos lotados para se proteger do suposto frio. Esse frio de cidade praiana que tá mais para psicológico. A mesma pressa que eles têm quando está um sol de rachar. No final somos todos pressa, não importa o clima. Estava num ritmo diferente, mais devagar.
Entrou no ônibus do segundo horário porque queria um lugar pra sentar e aproveitar a viagem para terminar aquele livro que vinha enrolando há semanas. Cochilou. Acordou a dois pontos do trabalho e olhou pela janela. La estava ele, com um café numa mão e a outra no bolso. Aqueles mesmos olhos escuros, que a olharam com uma profundidade inesquecível na primeira vez que se viram, olhavam para o horizonte.
Foi estranho. Um ponto de calor começou a arder no peito, virou o pescoço para continuar olhando mesmo que a velocidade do ônibus estivesse baixa. Um nó se formou na garganta. Não era choro, era uma estranheza. Um não-reconhecimento.
Como alguém que divide a mais profunda intimidade pode em tão pouco tempo se tornar um estranho segurando um copo de café na rua? Não enxergou naqueles olhos nenhuma familiaridade. Não se viu abraçada naquele colo. Desencontros.
A vida é cheia deles. Desencontros físicos, mas principalmente desencontros espirituais. NO fundo, pensou, é isso. Relacionamentos são grades encontros espirituais. Não estávamos mais na mesma frequência. Ele sol, eu cometa. Não sei parar.
O ônibus seguiu viagem. Engoliu o nó e sorriu. Estava curada. O ciclo fechou. A primeira vista ele era perfeito. À segunda vista ele apenas era. Passou.
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*aleatoriedades que gosto de escrever de vez em quando. Quando bate a inspiração. Resolvi compartilhar. Devo continuar?

deve!
ResponderExcluir<3
ExcluirEntendendo mais do que nunca o que tu disseste sobre ser A Garota das Letras, dá pra reparar em cada linha. Continua sim!
ResponderExcluirObrigada miga!!!! Escrever desanuvia... To me (re)encontrando cada dia mais
ExcluirWow.
ResponderExcluirMe encontrei nesses personagens, nos dois. E no dia cinzento, na rotina massacrante e, acima de tudo, no livro a ser lido.
Continue sim, por favor!
E obrigada por esse texto!
Beijos,
Do
Obrigada por ler, por comentar!! Você é uma inspiração ;) Beijos
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