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20 de julho de 2014

Todo dia – David Levithan





Foi num desses blogs literários da vida, que recomendaram efusivamente o livro, que li a seguinte sinopse:

“O protagonista, A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Depois de 16 anos vivendo assim, A já aprendeu a seguir as próprias regras: nunca interferir, nem se envolver. Até que uma manhã acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada, Rhiannon. A partir desse momento, todas as suas prioridades mudam, e, conforme se envolvem mais, lutando para se reencontrar a cada 24 horas, A e Rhiannon precisam questionar tudo em nome do amor.”

Tudo que eu consegui pensar quando lí essa sinopse foi “o espectro/fantasma/ser amorfo acorda todo dia num corpo diferente? OI? Tipo uma possessão?”

 E foi justamente essa curiosidade para entender o desenrolar de algo tão diferente de tudo que eu já tinha lido que me fez querer MUITO ler o livro. 

Enchi o saco de vários amigos falando sobre a história antes mesmo de ter lido. Eu sou daquelas que curte muito um romance brega clichê que não acrescenta nada na vida, mas dessa vez não foi a possibilidade de romance que me chamou atenção, achei a proposta do livro muito louca.

“Acordo.
Imediatamente preciso descobrir quem sou. Não se trata apenas do corpo — de abrir os olhos e ver se a pele do braço é clara ou escura, se meu cabelo é comprido ou curto, se sou gordo ou magro, garoto ou garota, se tenho ou não cicatrizes. O corpo é a coisa mais fácil à qual se ajustar quando se está acostumado a acordar em um corpo novo todas as manhãs. É a vida, o contexto do corpo, que pode ser difícil de entender. Todo dia sou uma pessoa diferente. Eu sou eu, sei que sou eu, mas também sou outra pessoa. Sempre foi assim.”

“A” vive por um dia a vida de uma pessoa aleatória, seja mulher, homem, branco, negro, homo ou heterossexual, almofadinha, Cheerleader, psicopata, entediado, viciado, depressivo, whatever!  O único padrão que A sabe é que acorda em vidas na mesma idade, 16 anos durante a janela narrativa do livro, e que estão num determinado raio geográfico. Somente se a pessoa na qual A está assumindo o corpo naquele dia viaje para um outro lugar distante, ele muda esse raio de “ação”. Tipo, se o hospedeiro sai dos EUA e vai para o Hawai, A passa a acordar em corpos Hawaianos.

A também consegue acessar as memórias do corpo em que está, de forma que possa reconhecer o cotidiano da pessoa, saber o que ela é e o que ela faz. Além disso, também pode influenciar nas memórias que aquela pessoa terá do dia em que ficou sendo apenas um hospedeiro.  Porque senão seria mega estranho a pessoa topar com a mãe no corredor e não saber quem ela é! Pior ainda é acordar no dia seguinte e lembrar que disse para o próprio namorado que não fazia ideia de quem ele era e ter que arranjar justificativas para isso.

Vejam bem que até agora não pude usar ele ou ela pra me referir a A, porque essa é uma questão extremamente bem pensada e escrita no livro: A não tem gênero. Apesar da gente acabar imaginando que seja do gênero masculino ao longo do livro devido a paixão por Rhiannon, o autor consegue ser muito sutil e criativo em explorar os fatores pelos quais A se apaixona por ela e deixa claro que não tem nada a ver com o fato dela ser mulher.


Os personagens têm muito potencial. A é inteligente e sensível,apesar dos seus conflitos de 16 anos, e consegue cativar quem lê suas experiências em corpos alheios, de forma muito suave. Rhianon também é um personagem muito legal, apesar de ser bem o esteriótipo da garota de 16 anos meio imatura e meio assustada.Senti um pouco de raiva dela às vezes por ser tão obcecada por Justin (o namorado citado na sinopse) e ser tão covarde para reconhecer o óbvio. 


O bacana dos personagens é que todos eles, e são muitos, um por dia, acabam se envolvendo na história de alguma forma. Inevitavelmente, devido a fascinação que A tem por Rhiannon, as vidas que A vive se envolvem nesta história e características de boa parte dessas pessoas acabam afetando a forma como A pensa e ama.


 A história tem conflitos. Já existe um conflito básico que é obvio: um ser que acorda todos os dias num corpo diferente e tem que viver a vida daquela pessoa sem deixar o mínimo de rastros possível, sem afetara vida do hospedeiro. Mas aí chega Rhiannon, que joga a sensatez de A para o espaço e tudo passa a girar em torno dela. 

Os conflitos dentro da mente de A vão se multiplicando: será que tinha o direito de amar alguém? Era possível dar certo com Rhiannon? Eles poderiam fazer essa loucura funcionar de alguma forma?  Será que ele estava cumprindo as próprias regras e não interferindo nas vidas das pessoas? Será que era realmente possível não interferir nas vidas das pessoas? Será que era possível dar um jeito de escolher um corpo e viver nele pra sempre? Será que existiam outros como A?


Essas e muitas outras perguntas são feitas e respondidas ou não, mas fazem com que a experiência de ler o livro se torne muito pirada e interessante. Os assuntos se abrem e se fecham, talvez de forma insuficiente para alguns. Eu considerei suficientemente bom.  Fechei o livro e fiquei pensando durante horas naquela loucura toda. 


Yan também recomenda!
Valeu MUITO a pena ler! O livro aborda tantas questões e te faz questionar tantas coisas, estranhar tantas outras. Acho que a questão central de tudo é como todos nós julgamos os outros pelas aparências, como tentamos colocar as coisas em estantes com rótulos. Nesse quesito o livro o pra mim além de uma experiência literária, foi uma experiência sensorial também, porque você acaba se colocando naquelas situações e inevitavelmente rotula e se confronta com seus próprios preconceitos.  E A é tão desprovido dessa diferenciação que te deixa constrangido ao ler.



Recomendo com bandeirinhas e letreiros piscantes! 










Não tenho muito que comentar que dê spoiler desse livro, por mais que eu fale qualquer coisa da história não iria substituir a experiência de lê-lo. Acho que o grande spoiler é esse: se prepare pra quebrar seus preconceitos! Mas vamos lá, achei super legal ele não ter ficado com a Rhianon no final. Iria ser surreal! Mas achei fofa a forma com que A encontrou para finalizar a história. Apesar da dele ter apenas começado. Você também ficou com a sensação que ele iria procurar saber mais daquela história que dava pra se apropriar de um corpo pra sempre?

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